Raul do Baú (Pensou, Fudeu!)

September 1, 2017

“Os meus fantasmas são incríveis… abusam de minha tendência místicka”. Cheguei no Circo Voador pensando nessa sentença e o quanto somos produto do que nos assombra. A luz também cega e o sentido quem coloca é a gente. Nas mãos uma capa preta e um escrito inédito de Raul enviado por seu amigo e guardião do Baú, Sylvio Passos. A missão de escrever sobre a noite me colocou em busca de perceber o todo, afastar o ego e olhar de fora, exercícios que o Canceriano sem lar parece propor em suas canções.

 

A lona voou lotada e entregue. Eram gerações da luz de todas as idades, ideias e com suas próprias questões sobre o aluguel do Brasil. Sempre me impressiono com a pluralidade do Messias Indeciso. No palco dois dos maiores responsáveis pelas gravações de guitarra e baixo em seus discos, o guita fiel escudeiro Rick Ferreira (Larga Rick!) e o baixista Paulo César Barros. Que privilégio poder ouvir as levadas e frases originais tão bem timbradas. Muitos tocam Raul, mas poucos conseguem destacar a genialidade daqueles arranjos. Ali matamos esse dia da saudade.

 

Tudo soava legítimo. A banda, muito sintonizada e segura com Emerson Ribber (voz, violão de 12), Pedro Terra (guitarra), Carlos Sales (bateria), Miguel Arcanjo e Fabrizio Iorio (teclados), conduziu com maestria os hinos lado A B e C de um repertório que passeava bem por todas as fases do Maluco Beleza. A direção artística nesse sentido conseguiu uma dinâmica fluida e nada deixava ninguém cansado. Todos queriam mais e queriam Bis.

 

O olhar cuidadoso de Kika Seixas e da produção do Circo com a presença espirituosa de Maria Juçá deu um clima familiar aos bastidores. O carinho e o respeito pela obra de Raulzito parecem só crescer em sua caminhada póstuma. Quando ouvi de Lencinho que ele precisava buscar sua capa vermelha não tive dúvidas, era a hora de abrir o Baú. A filha e DJ Vivi Seixas foi a apresentadora da noite. Com personalidade, carisma e disposição pra conduzir o rito musical, a caçula chamou o primeiro convidado. Ela o anunciou como o maior intérprete de seu pai que já conheceu, lembrando a história de sua invasão na primeira edição na qual começou pedindo pela chance de tocar alguma canção, e terminou aclamado depois de uma hora de apresentação. Baia chega com a segurança de quem conhece bem a fonte que desce daquele monte e dispara Rockixe, Aluga-se, Gita e SOS. A missa iniciava com um pastor experiente e o público na mão. Na sequência Rick assume os vocais e mergulha na sessão blues rock com Quando acabar o Maluco sou eu, Cachorro Urubu, Check up e Canceriano sem lar. Ouvir os causos de Rick é sempre uma aula a parte que revela a propriedade de quem conviveu em estúdio com as idéias musicais de Raul.

 

O próximo a entrar era um representante da nova geração com sorriso no rosto e trejeitos de quem já nasceu naquele tipo de berço. Chico Chico apresenta três canções bem diferenciadas e que dialogaram incrivelmente com seu estilo: Água Viva, Paranóia e a versão matadora voz e violão de Moleque Maravilhoso que foi um dos pontos altos da noite. 

 

Antes de Karina Buhr entrar no palco com Tente outra vez, Por quem os sinos dobram e Não pare na Pista resolvi perguntar qual foi o primeiro contato que ela lembrava ter tido com as músicas de Raul. A resposta que ouvi dela já ouvi de muitos, foi através da voz do Monstro Sist no especial Carimbador Maluco (Pluct Plact zum) que passou na Globo. O carpinteiro do universo foi questionado por esse musical várias vezes e eu achava impressionante ele se colocando como um tipo de veneno naquela engrenagem.

 

Dando continuidade a noite era a vez do lendário Marcelo Nova, parceiro em seu último álbum e responsável pelo polêmico retorno de Raul aos palcos antes da transmutação. Tinha preparado duas perguntas pra Marceleza e fui até ele: A primeira era – Imaginando um Raul nos dias de hoje, qual posição ele ocuparia na atualidade? Seria um transgressor incompreendido mediante o avanço da força conservadora ou teria voz pra fazer a diferença? Com o olhar meio sisudo ele me respondeu que quando você consegue alcançar um jeito de compor de forma atemporal, significa que você pode nascer em qualquer tempo que sempre vai soar como novo. Gostei dessa colocação pois esse realmente era um dom que a mosca na sopa tinha, soar atual num mix de filosofia profunda e relatos cotidianos que ferviam numa mesma panela. A outra pergunta era mais existencial…Você já viu Raul chorando? Ele se desconcertou todo, olhou pro infinito mas disse que realmente nunca o viu chorar. 

 

Me dei por satisfeito e corri pra assistir sua entrada com o filho Drake na guitarra. Rock´n Roll, Muita estrela pra pouca constelação e Pastor João e a Igreja Invisível deixam qualquer fã desnorteado. As duas primeiras quase não se ouve nos tributos por aí, e assistindo ao vivo descobri o porque…é necessário a quantidade exata de sarcasmo e irreverência pra se cantar aqueles versos difíceis pra qualquer intérprete segurar, e foi com essa dose a mais que Marcelo Nova escreveu seu nome na obra RaulSeixista. 

 

BNegão entra com a palavra afiada e destaca o lado irônico e crítico da noite. Só pra variar, É fim do mês, Mosca na Sopa e Como Vovó já dizia dão espaço a rimas como “O temer pode te pegar”. Ele também mostrou a versatilidade do vocabulário rítmico de Raul ao misturar a pegada rap nas melodias originais e encaixar improvisos com naturalidade. Baia retorna ao palco já em clima de confraternização com Ouro de tolo, canção que o destacou no projeto quando rasga o terno em registros de outrora. Seguiu com Medo da Chuva, Cowboy fora da Lei e Loteria da Babilônia. Em Cowboy, Vivi e Chico Chico retornam e cantam juntos. Fiquei emocionado quando o verso “Papai não quero provar nada” caiu justamente pra filha cantar. São esses detalhes que acabam eternizando ainda mais o momento. 

 

E de repente o clique, tava chegando minha vez. Havíamos combinado a leitura do texto inédito que deixei no camarim junto a uma capa que por vezes uso pra me proteger de mim. Era também uma referência a Toninho Buda que já participou de outras edições e representava o lado místicko da Metamorfose. A beira de entrar no palco me veio na lembrança que quando conheci Toninho eu estava com Sylvio na estréia do filme “O início, o fim e o meio” no Odeon. Ele me contou da gravação em vídeo de “Contatos imediatos de IV Graal” e cheguei a receber esse DVD. Magia, lendas e ritos sempre permearam as loucuras de Raul. Sou um aluno dessa escola e acabei colocando ‘ck’ em meu nome depois que vi uma explicação sobre Love is Magick, onde ele diferenciava magia e mágicka. Realmente era um desafio ler aquela mensagem ao vivo e segundos antes de entrar entendi o que também estava fazendo ali. Éramos carteiros de um tipo de percepção. Foi ensurdecedor ouvir momentos de silêncio que pairavam na platéia enquanto recitava, e rapidamente emendamos com os versos de Loteria numa catarse final com Vivi no palco.

 

Emerson Ribber, voz potente e considerado o songbook de Raul foi trazido por Rick e fez o fechamento do show com Eu nasci há 10 Mil Anos Atrás, Judas, Metrô Linha 743, Segredo do Universo, Rock do Diabo e Meu Amigo Pedro. Foram em torno de 2 horas e meia de raulseixismo puro e a sensação de que mais um ciclo se fechava pra que outro se abrisse. A presença do jornalista Jamari França e de Arnaldo Brandão, que já tocou em outras edições do projeto, me mostrou como Raul ainda desperta o olhar atento de quem viveu sua época.

 

E assim renova-se a ideia de que nunca se vence uma guerra lutando sozinho. Todos estavam juntos em prol de algo que não se explica, apenas se percebe. A semente que ele plantou realmente nasceu. O testamento de lucidez foi proclamado por todos os malucos presentes. Ele avisou, a chave é torta e assim nunca morreu. Um dia me disseram que ele adorava uma frase: Pensou, Fudeu! 

 

*texto publicado no www.circovoador.com 

fotos: Cleber Jnr / Alle Manzano / aquivos pessoais 

 

 

 

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