A síndrome do escolhido

August 4, 2017

 

A sorte é relativa, construída e imprevisível. Certa vez ganhei um salto de pára-quedas numa decisão de “zerinho ou um”.  Era uma ação de rádio que envolvia minha banda na época e um de nós seria escolhido pra pular junto ao vencedor da promoção. Não consegui comemorar o “ganhei!” que havia gritado naquele instante pois me dei conta que morria de medo de altura. Pra aumentar o desespero  ainda foram me explicar sobre os possíveis problemas que enfrentaria no ar. Na subida os saltadores mais experientes percebendo meu nervosismo não paravam de me aterrorizar. Sim, estava desesperado com o fato de ter essa chance. Engraçado que antes de cair você fica por alguns minutos dependurado pra fora agarrado no avião até soltar as mãos e se entregar pra queda livre. Acho que foi nesse episódio que comecei a perceber como era amplo o significado da palavra Fé.

 

Anos antes desse causo eu estava sentado na arquibancada de um circo quando os palhaços resolveram escolher alguém da platéia pra fazer um número. Era aquele das facas sendo tacadas num alvo giratório com todos os envolvidos vendados depois do clássico rufar dos tambores. O tal do palhaço Goiabada mirou em mim e gritou, Vocêêê! Minha turma me empurrou na hora e fui parar no picadeiro. Só pensava nas manchetes de jornal anunciando: Acidente no Circo fere Adolescente Cabeludo. É tanta coisa que passa pela nossa cabeça quando estamos na figura do “escolhido”.  Sorte e azar se confundem nessa equação que envolve livre arbítrio e destino. Jamais podemos nos esquecer que temos o poder do “Não” em nossas mãos o tempo inteiro. Ele pode nos salvar. No acidente de ônibus que me envolvi há três anos e fui um dos sobreviventes, o fato deu estar sem o cinto de segurança e voado no momento da colisão com aquele caminhão foi decisivo pra que eu estivesse aqui agora digitando esse texto. Escolhemos e somos escolhidos em cada provação que passamos. É louco pensar que pra sobreviver tive que quebrar uma regra de segurança. 

 

Sorte e azar se misturam num jogo de crenças onde a luz ilumina a certeza de quem não sabe nada. Pra desvendar o segredo só encarando o desconhecido. A alquimia da transmutação pode ser praticada num simples jantar por alguém que nem sabe que a está praticando. A bruxaria existe e já não é tão oculta assim. Varrer os problemas pra debaixo do tapete nunca resolveu. Existem coisas bem mais interessantes pra se fazer com uma vassoura. Escolha aquela que te escolheu. É a sorte de ter uma bússola sem norte. 

 

 

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