O pelado sem culpas

May 24, 2017

 

Ouvir um elogio muitas vezes dói. Freud já havia nos alertado sobre os “Arruinados pelo êxito”. Caminhamos solidários no sofrimento e solitários no sucesso na busca de entender porque falar bem de alguém dura apenas alguns minutos e falar mal pode durar uma noite inteira. O conceito de inveja é cruel: não aceito que o outro realize independente se realizo ou não.  É quando a vitória alheia vira uma questão pessoal. Por que ele e não eu?

 

Esses dias encontrei por acaso com Moraes Moreira na Gávea e gentilmente ele comentou que havia adorado um dos clipes do meu último trabalho. Fiquei super sem graça, mudei de assunto, não suportei. Somos despreparados pra lidar com o elogio também. Preferi me esquivar do assunto a ter que admitir que havia conquistado alguém que admirava.

 

Sai desse encontro reflexivo e lembrei da minha primeira experiência com chá de cogumelo na Rural no início do novo milênio. Havia errado na dosagem, comido 13 cogumelos e achei que tinha morrido depois que desmaiei. Acordei em transe e me despi. - Poxa, pra que usar roupas se estou morto. Andei pelo pasto durante um bom tempo e depois caminhei pelado na cidade até ser resgatado pela minha turma. Foram 9 horas no efeito e fui parar na casa de uns amigos que não entenderam nada quando me viram. Cheguei a conclusões alucinantes e não conseguia dividir com ninguém aquela experiência. Estava numa viagem profunda, plena e totalmente só.  Um amigo disse que lá pelas tantas eu só agradecia estar vivo e jurava de pés juntos que nunca mais ia topar coisas desse tipo. Durante umas 30 vezes eu levantei as mãos pro céu e agradeci pela onda ter passado e por conseguir ficar sóbrio novamente, até que ele virou pra mim e disse: - Macacko, já que você retornou ao normal coloca a roupa pelo amor de Deus! Foi um tapa perceber que a sensação de normalidade fazia parte do efeito. Engraçado que toda vez que tentava narrar sobre os lugares inimagináveis que alcancei interiormente o assunto tendia a finalizar, mas quando contava sobre as cenas que me fizeram virar a piada da cidade, o papo parecia não ter fim. 

 

Assumir o risco da singularidade é uma tarefa árdua. E o que a inveja tem a ver com isso? Certa vez fizeram uma pesquisa numa faculdade renomada sobre quais dos 7 pecados capitais os alunos assumiam praticar. 0% assumiu ter inveja. 

 

 

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